terça-feira, 7 de Outubro de 2014

1º Curso de Metodologias de Investigação Qualitativa - [NOVA DATA INÍCIO: 6 DEZ 2014]


Nova estrutura de formação em Qualitativas

Em conjunto com a Casa estrela-do-mar, irei dinamizar uma formação em metodologias qualitativas, organizada segundo as avaliação e  sugestões dos participantes que participaram nos meus Workshops de 2013/14.
Eis as novidades:
  • Desenho encadeado de 7 Módulos: Permite desenhar a investigação, recolher os dados, analisá-los e escrever o produto final durante o curso, sempre com acompanhamento.
  • Maior espaçamento temporal entre os módulos /cerca de 1 mês), permitindo:
  • Maior aprofundamento das principais temáticas e desenvolvimento ao vivo do projecto/análise;
  • Forte componente prática em todos os módulos (Bring your own data ou acesso a dados já recolhidos para os exercícios práticos)
  • Acesso a supervisão individual
flyerqualit3

7 Módulos (28h)

Módulo 1:  Introdução à investigação qualitativa; Paradigmas; Planeamento e estratégia de Investigação; Recolha  de dados qualitativos (Entrevista/Questionário/Observação) [NOVA DATA INÍCIO: 6 DEZ 2014]
Módulo 2: Tipos de análise qualitativa; O processo de codificação; Introdução ao ambiente NVivo 10 [13-Dez-2014]
Módulo 3: Codificar no Nvivo 10; Casos e Grupos [17-Jan-2015]
Módulo 4: Pesquisas avançadas no NVivo (Queries); Qualidade em qualitativas [7-Fev-2015]
Módulo 5:  Dar forma ao dados e/ou construir teoria; A utilidade dos mapas conceptuais [14-Mar-2015]
Módulo 6: Escrita de outputs qualitativos (teses, reports, artigos); Processo de publicação;  Supervisão Individual [11-Abril-2015]
Módulo 7: Escrita de outputs qualitativos (teses, reports, artigos) & Supervisão Individual [9-Maio-2015]
Formadora:  Luana Cunha Ferreira – Psicóloga. Doutorada em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. (FPUL) e Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.  Colabora na docência da unidade curricular Métodos de Investigação em Psicologia – Temas Avançados, no Mestrado Integrado em Psicologia da FPUL. Formadora e Consultora em Metodologias Qualitativas.  Autora do blog Qualitativas, etc.
Horário: 14-18h
Destinatários: Finalistas de Mestrado, Investigadores, outros interessados.

Valores:

Curso completo (28h): Valor de 395 euros (316 euros para Associados)
Cada Módulo (4h): Valor de 75 euros (60 euros para Associados)

Torne-se sócio!

Inscreva-se através de email geral@casaestreladomar.pt ou ligue 913301540.

NIB Associação Casa Estrela do Mar:
0035 0202 00037830 530 65
Banco Caixa Geral de Depósitos
Nota: Datas sujeitas a alterações conforme propostas dos participantes, se possível. O curso funcionará com um mínimo de 5 e um máximo de 8 participantes no curso completo. Casos não se atinjam 5 participantes em todos o módulos, o curso não se realizará.

terça-feira, 8 de Abril de 2014

Formação em Análise Qualitativa: 2, 3 e 17 de Maio




Inscrições Abertas! 


Novas formações em Análise Qualitativa, dias 2, 3 (esgotado) e 17  de Maio,  na Associação Casa estrela-do-mar. 

Envie um email para geral@casaestreladomar.pt ou ligue 913301540

Venha descobrir qual tipo de estratégia de análise se adequa aos seus objectivos ou venha simplesmente perceber a  diferença entre análise temática, análise narrativa e grounded theory. Ou ainda perceber o funcionamento básico do NVivo 10, um dos programas mais utilizados na análise qualitativa. 

Módulos Inicial e Avançado

Mais informações

Image courtesy of FreeDigitalPhotos.net




terça-feira, 11 de Março de 2014

NVivo beta para Mac (free)



Já chegou ao NVivo para Mac (versão beta, grátis até Junho 2014)






O NVivo já está acessível para utilizadores de Mac. Ainda é uma versão beta, mas está disponível para download gratuito até Junho deste ano.

Podem ver o vídeo de demonstração em cima, perceber as características desta versão aqui e fazer o download aqui.

Boas descobertas!

quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Tipos de análise qualitativa (#1): A análise temática


Muitas das questões que me fazem actualmente referem-se às diferenças e semelhanças entre tipos de análise de dados qualitativos:

Se quando utilizo grounded theory estou à procura de temas emergentes, isso não é análise temática? E a análise temática é mais simples do que a análise narrativa? Qual a diferença entre análise de conteúdo e análise temática?

Hoje iniciamos uma série de artigos que pretendem abordar algumas destas confusões. Começamos com a Análise Temática - o método mais "faça-você-mesmo" da analise qualitativa.

por Luís Alves
 http://urban-myth.tumblr.com

O que é a análise temática?


A análise temática é um método interpretativo de análise de dados. Através da identificação, análise e descrição de padrões ou temas, permite apresentar e organizar os dados de uma forma sintética, embora rica.

A análise temática é flexível;  pode ser utilizada com diferentes posicionamentos epistemológicos (positivista; pós-positivista; construccionista); não tem requisitos de amostragem (i.e.: não é necessária uma amostragem teórica); e adequa-se a diversos tipos de dados qualitativos (entrevistas, focus groups; diários, etc). 

Fazer análise temática é como fazer 'grounded theory light'


Enquanto a grounded theory (GT) é considerada uma metodologia específica, já que pressupõe um quadro de referência teórico sobre como conduzir a recolha e análise de dados de forma a produzir teoria, com um protocolo (relativamente) definido, a análise temática é apenas um método de análise. 

A análise temática é mais acessível do que a grounded theory, especialmente se considerarmos que uma abordagem com GT pode demorar muito tempo, tem procedimentos específicos que precisam de ser bem treinados e calibrados, necessita de uma contínuo investimento na abstracção conceptual e na comparação constante, e tem alguns requisitos pouco adaptáveis a muitos projectos de investigaçãoAo contrário da grounded theory, a análise temática não tem como objectivo último o desenvolvimento de uma teoria a partir de conceitos core, mas sim uma descrição sumária dos dados através de temas que os representem adequadamente.


Como fazer análise temática: 15 critérios de qualidade



Embora flexível e aparentemente 'descomplicada', a análise temática pode tornar-se numa dor de cabeça para investigadores menos experientes: a ausência de um referencial teórico sólido pode dificultar o processo de análise e a simplicidade dos processos pode contribuir para resultados simplistas - que mais não são que paráfrases dos dados. Eis os 15 critérios para uma análise temática de qualidade (adaptado de Braun & Clarke, 2006). 


  1. Os dados foram transcritos detalhadamente e devidamente contrastados com as versões áudio para detectar erros. 
  2. No processo de codificação, foi dada igual atenção a cada fonte de dados (i.e. cada entrevista)
  3. Os temas foram gerados através de um processo de codificação completo, inclusivo e aprofundado, não através de alguns recortes anedóticos do texto
  4. Todos os excertos relevantes foram agrupados em temas
  5. Os diferentes temas foram comparados entre si e contrastados com o texto original
  6. Cada tema é internamente coerente, consistente e distinto (de outros temas)
  7. Os dados foram analisados de forma interpretativa, não são apenas descrições ou paráfrases do texto. 
  8. A análise e os dados são compatíveis: os excertos ilustram claramente os temas sugeridos.
  9. Os resultados da análise contam uma história organizada e convincente sobre o tópico
  10. Há um bom equilíbrio entre a narrativa de análise e a ilustração dos temas através de excertos
  11. A análise demorou algum tempo, não foi apenas uma passagem superficial pelos dados à procura de tópicos gerais
  12. No relatório final da análise, os pressupostos teóricos e todas as fases processo de análise são descritos detalhadamente na secção Método (ou tão detalhadamente quanto os requisitos da revista permitam)
  13. A descrição dos procedimentos de análise(#12) é coerente com a forma como os dados estão descritos nos resultados
  14. A linguagem e os conceitos usados são consistentes com as posições epistemológicas assumidas pelo investigador. Por exemplo, se reivindica uma posição pós-positivista, assume que a realidade não é cognoscível e estarão ausentes dos resultados temas e construtos que transmitam a  ideia de uma realidade objectiva. 
  15. O investigador posiciona-se de uma forma activa na análise - os temas não emergem por si só

Convém ter em conta que há pelo menos duas abordagens à análise temática. A abordagem mais utilizada é a de Braun e Clarke, a outra é proposta por vários autores, entre os quais Boyatzis (1998). 


por Luís Alves
 http://urban-myth.tumblr.com

Referências:


quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Formação em metodologias qualitativas e análise de dados


Precisa de utilizar metodologias qualitativas de análise de dados e não sabe por onde começar?

Quer saber a diferença entre análise temática, análise narrativa e grounded theory?  Gostava de perceber que tipo de estratégia de análise se adequa aos seus objectivos? E aprender o funcionamento básico do NVIVO, um dos programas mais utilizados na análise qualitativa?

Irei dinamizar na Casa estrela-do-mar, no próximo dia 25 de Janeiro (14-18h), uma formação pensada para  estudantes,   investigadores e interessados em análise qualitativa. 

Valor de 30 euros (24 euros para sócios da Casa estrela-do-mar).

Inscreva-se através de email geral@casaestreladomar.pt ou do telefone 913301540.

Inscrições limitadas!

Mais informações aqui


terça-feira, 16 de Julho de 2013

Plágio: Como evitar


Com o blog em estado de "pausa forçada" devido aos meses finais de entrega do doutoramento, deixo-vos um pequeno 'mapa de estrada' sobre o plágio. Não é difícil evitá-lo e nunca é demais relembrar  aquilo que é um premissa básica do trabalho científico: dar o crédito aos autores originais.

Boas escritas!




Poster de Teachbytes

quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Bolsas, Financiamentos e Investigação Qualitativa (grounded theory)



E como estamos em altura de escrever projectos para Bolsas de Investigação e financiamentos vários, aqui fica um artigo para ajudar a ultrapassar alguns dos desafio mais desconcertantes para quem quer fazer grounded theory tradicional e cumprir com os pré-requisitos dos formatos tradicionais das propostas de investigação: "Surviving Grounded Theory Research Method in an Academic World: Proposal Writing and Theoretical Frameworks", por Elliott & Higgins, do Trinity College (Dublin).


Tensões mais frequentes:

- Obrigatoriedade de usar um quadro de referência teórico como parte dos requerimentos da proposta de financiamento

- Primazia da ligação investigação-teoria em vez da ligação teoria-investigação

- Pré-definição da recolha de amostra e saturação teórica



Já que estamos no tema, mais informações sobre como fazer e escrever uma boa proposta de investigação qualitativa aqui, aqui e aqui.



Boa leitura...e boa sorte para as Bolsas :-)



quarta-feira, 5 de Junho de 2013

A Casa Estrela do Mar, parceira do Qualitativas, etc., faz amanhã a sua festa de lançamento!


A Associação Casa Estrela do Mar, através da qual o Qualitativas, etc. já teve oportunidade de oferecer uma formação em análise de dados qualitativos, faz amanhã oficialmente a sua festa de lançamento. É na Fábrica do Braço de Prata, com eventos das 17h até depois da meia noite. O programa das actividades conta com a participação do Prof. Dr. Daniel Sampaio e da Prof.ª Dr.ª Margarida Gaspar de Matos, no debate sobre “Adolescência: Problema ou Solução?”. Seguem-se uns petiscos por Pêra Doce, também na Sala Prado Coelho. Contará também com a actuação do grupo MXM  e uma série de convidados especiais que se juntarão à festa, às 22h. A partir da meia noite, a festa seguirá ainda mais animada no piso de baixo, na Caverna Platão. 

Podem seguir aqui o evento e conhecer a Casa Estrela do Mar através do video de lançamento:




quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

Análise de dados qualitativos: Actividades práticas com alunos

Esquemas resultantes da análise qualitativa in loco, produzidos pelos alunos.


O que acontece quando um grupo de alunos de psicologia - que na sua maioria nunca ouviu falar em análise qualitativa  - é confrontado com um excerto de uma entrevista para codificar? Ali e agora.  Medo? Caos? Incredulidade? Escárnio e mal-dizer? Dissonância cognitiva? O ocasional bocejo?  :-)  Sim, alguns destes ingredientes estiveram presentes, são pitadas essenciais numa actividade onde se pede uma elevada capacidade de entrega e de experienciação de algo que é desconhecido e complexo..

No entanto, o que senti na vasta maioria dos alunos-participantes* foi uma curiosidade genuína, uma séria pré-ocupação com o rigor metodológico e uma excelente capacidade de envolvimento com os dados e com o processo. E também uma saudável disponibilidade para porem em causa preconceitos  e para se rirem das automatizações que por vezes estão enraizada na forma como encaramos as ciências.

Após uma aula teórica onde foram apresentados os conceitos gerais da análise de dados qualitativos e os métodos e paradigmas subjacentes (tomando como exemplo este  projecto), surgia o grande desafio: a análise de um excerto de uma entrevista, na aula prática, conforme indicações do seguinte exercício em grupo :

Tarefa: "No mundo dos casais"


  1. Ler o excerto da entrevista e reflectir sobre quais os objectivos específicos subjacentes;
  2. Testar e afinar os processos de codificação;
    1. Descritiva: Quem são estes participantes?
    2. Tópica: O excerto refere-se a que temas gerais?
    3. Analítica: Que categorias emergem? Que conceitos estão representados, o que pode ser explicador e agregador, como se relacionam os conceitos?
  3. Justificação: basear a codificação analítica na contagem de ocorrências de determinadas unidades de significados, na relação entre categorias e/ ou na análise aprofundada da estrutura da narrativa.
  4. Criar um esquema que ilustre os resultados da análise

Cada grupo teve direito a um excerto diferente da mesma entrevista. Este foi um deles:


"Excerto 4  da entrevista ao casal Mariana (37) e Francisco (39), em união de facto há 10 anos, com 3 filhos.
L: Imaginem que vocês encontravam um casal de 80 anos que vos dizia “Nós conseguimos manter um desejo sexual muito satisfatório para ambos, ao longo de 60 anos de casamento”. O que é que vocês acham que este casal fez?
M: Acho que comunicou bem.
F: Confiança.
M: Aprenderam a manter a comunicação. Se agora não conseguimos resolver, amanhã vamos conseguir. Se eu não consigo, ele vai conseguir.
F: Expostos à diferença. A ouvir o outro.
M: A tolerar que o outro não se funda comigo. Que o outro esteja no meio da festa e ser a estrela.
F: Não admitir a monotonia, se não às tantas enrola-se numa coisa que não tem interesse e acaba por acabar.
M: Se o próprio tem uma dificuldade um problema que não consegue resolver, pode ser necessário ir buscar uma ajuda…
L: Ir buscar os recursos que se acha que são necessários?
M: Mas mantendo sempre aberta a comunicação. Eu preciso disto, vou fazer isto… Pode ser qualquer coisa e que o outro saiba dizer então vai."



Os grupo iniciaram o seu trabalho com diferentes ritmos. As principais dúvidas iniciais prenderam-se com a codificação descritiva (até chegarem às categorias "género", "idade", "tipo de união" - as únicas a que tinha acesso). Após ultrapassada a primeira dificuldade, os pedidos de ajuda ou esclarecimento foram relativos ao processo - indubitavelmente árduo - de abstrair dos dados categorias suficientemente específicas e simultaneamente meta, que de facto acrescentem qualquer coisa de novo à análise. Ao relacionar estas novas categorias emergentes entre si através de outras categorias mais interactivas ou processuais, os resultados esquemáticos começaram a ser testados contra os dados (excerto) e os resultados estão à vista.

Exemplos de alguns esquemas produzidos:










Todos estes excertos foram conceptualizados e produzidos pelos alunos em menos de 1 hora! Mas o processo total foi maior e incluiu uma aula teórica. Fomos do excerto às perguntas do guião, do guião à entrevista, dos dados às categorias de análise, sempre em frente até às pesquisas de significados e por fim de volta às análises para perceber como se pode co-construir a teoria.


Pessoalmente, foi uma experiência riquíssima, e fiquei cheia de vontade de repetir!

Obrigada a tod@s.


* Tenho por hábito, nas aulas que sou convidada a dinamizar, distribuir uma folheto com 3 pontos (O que gostei mais? O que gostei menos? e Comentário)  para a minha própria avaliação, ou seja, para perceber o que correu bem e que áreas é que necessitam de ser melhoradas. É uma ferramenta de trabalho inestimável.

Nota: Todos os esquemas foram reproduzidos com a expressa autorização dos seus autores originais. Agradeço à aluna Marlene L. o envio de algumas fotografias e lamento não poder colocar todos os esquemas produzidos, por questões de espaço no blog. 

sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

Sigam o Qualitativas, etc. no Facebook!





A página do Qualitativas, etc. no Facebook tem updates mais regulares do que o blog propriamente dito. Isto porque algumas referências ou links interessantes, que não merecem um post inteiro, seguem directamente para o Facebook sem passar pela casa da partida, que é neste caso o blog!

Assim, se quiserem aceder a todos os conteúdos sugeridos ou produzidos pelo nosso blog, não custa nada: sigam-nos aqui!

quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

Na primeira pessoa: Análise de dados qualitativos




É com grande orgulho que apresento uma nova colaboração no blog: Maria Minas* fala-nos dos seus primeiros mergulhos na análise qualitativa, e de quão caóticas e recompensadoras podem ser estas aventuras. 


Diário dos primeiros passos na análise de dados

Dia 1: Querido diário, já recolhi os primeiros dados da minha investigação. Várias impressões e interrogações me assaltaram desde que comecei a ouvir os participantes das entrevistas… Aliás, acho que foi a sensibilidade e curiosidade que me trouxeram aqui e continuam a atrair-me e sugestionar-me discretamente. Mas hoje escrevo para registar um marco importante. Vou começar oficialmente a fazer “análise de conteúdo”. Estou curiosa, entusiasmada e assustada com esta aventura. Descobrir que padrões emergem do emaranhado de conteúdos, de significados… Que surpresas, aprendizagens, confrontos, mudanças me esperarão?

Dia a seguir: “Há tantos caminhos que vão dar a Roma”… Qual será o que melhor condiz com os princípios e objectivos do estudo, com aquilo que pretendo conhecer e a maneira como o pretendo fazer? Afinal, fazer análise de conteúdo equivale a aprender análise de conteúdo e criar análise de conteúdo. Preciso de apreender as ferramentas que já existem, compreender as suas várias utilidades e como se manuseiam e depois personalizar o percurso, ajustando-o à razão de ser da minha investigação, aos seus participantes, à sua essência…

Dias depois: Tenho andado às voltas a ler as transcrições das entrevistas e a tentar absorver o que os entendidos na matéria de analisar conteúdos entendem. Vou apontando reflexões e memos. Espero que sejam úteis, tenho feito pequenas experiências baseando-me nas dicas que os autores vão partilhando de “por onde pegar” no nosso emaranhado de conteúdos. Chegou a hora de arriscar e dar os meus primeiros passos. Começar a apropriar-me da experiência e esboçar alguma coisa que reflita a voz e sentidos dos participantes, da nossa investigação.

Passados muitos dias: “Que engraçado!” “Que confusão!”… “Que interessante…” “Nunca tinha reparado….” “O que quererão dizer com isto?” “AH!”…“Bem, tenho que fazer outra coisa, a monotonia está a dar-me sono”. Não escrevia há muito tempo, mas estas são algumas das expressões que me têm ocorrido, entre muitas outras. Quase que poderia fazer uma análise de conteúdo da minha própria experiência subjectiva! Sem dúvida que ia ser surpreendente e rica… E depois podia relacioná-la com o que tenho recolhido dos participantes e comparar! De repente parece que tudo à minha volta tem potencial para análise de conteúdo, dá vontade de questionar, comparar, quase como se de um jogo se tratasse. Estou de tal maneira embrenhada que me sinto voltar aos tempos em que jogávamos consola e, tal era o “envolvimento”, transportava o jogo para o sonho e sonhava que estava a ultrapassar níveis do Super Mário e descobria novos truques…! Vejo muitas coisas positivas em viver este espírito adolescente no processo de análise de dados, chega a ser lúdico olhar para esta “obrigação” como um jogo de criatividade e sensibilidade. E esta aprendizagem, esta lente a olhar para a vida, para os significados e para as relações acaba por se entranhar e ser transferida para outras leituras e para a maneira como integro e acolho o que vejo e oiço. Dou então por mim a ver os padrões que emergem na exploração dos dados plasmados noutras situações mais rotineiras – numa notícia, num poema, numa crónica… E de repente, em qualquer leitura destacam-se palavras, pulam e juntam-se a outras e formam triângulos e apontam para novas direcções…
Sonho? Não. Realidade dinâmica, de quem se deixa influenciar e interpelar pelos dados, pelo que os participantes das entrevistas transmitem…!

E estou só no princípio. Este exercício promete ganhar complexidade, baralhar-me, mas esclarecer-me também. O tempo não se perde, ganha-se. Porque enquanto não damos por ele a passar crescemos na capacidade de ouvir a perspectiva dos outros e de assim aumentarmos o entendimento comum e a afinidade nas nossas relações. 




* Maria Minas, Psicóloga, encontra-se a desenvolver a sua investigação de doutoramento no 

Programa Doutoral em Psicologia Clínica (FPUL-FPCEUC), sobre a intervenção eco-sistémica em famílias pobres multidesafiadas. maria.minas(arroba)gmail.com


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sexta-feira, 21 de Setembro de 2012

Emoções e Bloqueios na Escrita Científica



Carol Smart 

A escrita científica, nos seus diversos formatos e pelas suas características únicas, não é nada fácil. É um desafio constante que facilmente tomba para ansiedades, estados depressivos e bloqueios vários. No vídeo "The emotional challenges of writing"Carol Smart, do Morgan Centre (Universidade de Manchester) revela-nos, de forma brilhante e em menos de 7 minutos, que medos se escondem por trás destas dificuldades, que estratégias ela própria utiliza* e como ultrapassar um desafio muito específico: Bloqueio d@ Escritor@, vulgo Writer's Block. O vídeo é um Inglês, para quem quiser há o meu resumo livre logo em baixo.

*eu não sei nada, mas acho que estas estratégias devem funcionar...afinal estamos a falar de alguém que publicou mais de 50 trabalhos científicos só na última década. Atenção, não façam as contas com as outras décadas, perigo de desmotivação!


video
Vídeo produzido Pelo Morgan Centre for the Study of Relationships and Personal Life (University of Manchester) também disponível aqui

Os desafios:
Escrever cientificamente tem várias implicações mas uma delas é constante: escrevemos potencialmente para uma audiência de pares qualificados. Isto pode facilmente criar o medo da exposição, de sermos julgados. A nossa escrita é pública e o fantasma da vigilância interpares, ainda que muitas vezes negado, é real. Para os "escritores" mais novos que apenas publicaram a tese, por exemplo, é também comum a questão "será que nunca mais vou conseguir publicar? A acompanhar esta tragédia (!) vem também a velha questão da insegurança, ou seja, se seremos tão bons como os nossos pares.

Três estratégias para escrever de forma produtiva:
1. Reconhecer que as emoções fazem parte do processo de escrita e que o próprio processo é feito de altos e baixos.
2. Encontrar o nosso ritmo de escrita e respeitá-lo. Se escrevem bem de manhã e a seguir ao almoço não conseguem concentrar-se até às 16h, assumam essa rotina sem culpa e utilizem as outras horas para fazer outras coisas necessárias (ou nem tanto). Se o vosso ritmo funciona, tornem-no numa rotina.
3. Nada na escrita científica, pela sua própria definição, é definitivo. Em vez de pensarem que já vão estar a ser julgados, pensem que estão apenas a iniciar uma conversação, porque na realidade, é mesmo disso que se trata. Não se sentem em cima da vossa produção intelectual até estar tudo completamente maduro e perfeito, lancem umas ideias para a discussão e algo crescerá daí.

E quando o Bloqueio se instala?
Não é preciso que as ideias estejam completamente desenvolvidas para as escrever. Escrevam tudo, até os maiores disparates ou aquilo que parece apenas uma semente muito pouco desenvolvida. Escrevam tudo, sempre. Smart afima que "a Progressão opera contra a depressão". Encarem a escrita de uma forma mais leve. Por fim, uma das ideias aqui sugeridas que considero particularmente útil para as metodologias qualitativas é a de começar a escrever um projeto ou uma ideia por aquilo que vais vou interessa ou mais vos seduz nela. As ideias materializam-se também (ou sobretudo) no próprio processo de escrita. Mantenham algumas ancoras para não se perderem no vazio ou saírem completamente dos vossos objetivos, mas deixem-se também levar pelo próprio processo. 

No fundo, escrevam tudo, sempre. 
Ou como diria Pina Baush: "Dancem, dancem, senão estaremos perdidos"


Referências:
Smart, C. (2010). The Emotional Challenges of Writing [Video]. Disponível através de  www.manchester.ac.uk/morgancentre.
Smart, C. (2010). Disciplined writing: On the problem of writing sociologically. Disponível através de http://www.socialsciences.manchester.ac.uk/morgancentre/realities/wps/13-2010-01-realities-disciplined-writing.pdf

quinta-feira, 19 de Julho de 2012

Mapa de Estrada: Qualitativas na Biblioteca




Não é a primeira (nem a quarta...) vez que me perguntam:
- "Tanta coisa...mas por onde é que começo?"
- "É melhor ler primeiro sobre os paradigmas ou sobre as técnicas?"
- "Deixo para o fim os grandes handbooks de qualitativas ou ataco-os logo antes de seguir para a grounded theory?"


Deixo aqui um possível roteiro. Baseei as minhas escolhas na minha própria experiência em termos de mestrado + doutoramento e naquilo que considero ser o mais frequente planeamento estratégico de uma investigação. É uma lista curta, focada naquilo que considero "os essenciais". É um ponto de partida. 


Todos estes recursos se encontram na Biblioteca da Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação.


Organizei os recursos na forma que é para mim mais natural e correcta: 1) Paradigmas e abordagens macro; 2) Escolas; 3) Estratégias de recolha; 4) Técnicas de análise; 5) O mundo real  e 6) Integração e escrita. Alguns são em Português (PT). Penso que esta sequência poderá prevenir alguns daqueles erros clássicos e tãooo chatos ("Oh não! Afinal não posso fazer grounded theory com categorias prévias rígidas! Será que acabei de perder 1 mês de codificações!?! ")


Aqui vai:


Paradigmas e abordagens macro
  • Flick (2005). Métodos qualitativos na investigação científica (PT). 
  • Denzin & Lincoln (2008).  The landscape of qualitative research
  • Creswell (2007). Qualitative inquiry & research design : choosing among five approaches
  • Denzin &Lincoln(2006). The Sage handbook of qualitative research 
  • Creswell & Clark (2011). Designing and conducting mixed methods research
Escolas e Modelos
  • Corbin & Strauss (2008). Basics of qualitative research : techniques and procedures for developing grounded theory (Também em PT, com o título: "Pesquisa qualitativa : técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de teoria fundamentada")
  • Charmaz (2007). Constructing grounded theory : a practical guide through qualitative analysis (Também em PT, com o título "A construção da teoria fundamentada"
  • Hollway & Jefferson (2007). Doing qualitative research differently : free association, narrative and the interview method
  • Elliott (2005) Using narrative in social research : qualitative and quantitative approaches
  • Guerra (2006).  Pesquisa qualitativa e análise de conteúdo
Estratégias de recolha
  • Brinkmann & Kvale (2009). Interviews: Learning the craft of qualitative research interviewing 
  • Rubin & Rubin (2005). Qualitative interviewing : the art of hearing data.
  • Krueger (2009). Focus groups: A practical guide for applied research.
Técnicas de análise
  • Silverman (2009). Interpretação de dados qualitativos : métodos para análise de entrevistas, textos e interações
  • Major &Savin-Baden (2010). An introduction to qualitative research synthesis : managing the information explosion in social science research 
  • Bazeley (2010). Qualitative data analysis with NVivo.
  • Guerra (2006).  Pesquisa qualitativa e análise de conteúdo
  • (nota: o primeiro e segundo livro na categoria "Escolas e Modelos" também incluem componentes de análise, em grounded theory)
O mundo real
  • Richards (2009). Handling qualitative data: A practical guide
  • Hesse-Biber & Leavy (2011). The practice of qualitative research.
Integração e Escrita
  • Bloomberg & Volpe (2008). Completing your qualitative dissertation: A roadmap from beginning to end.
  • Wolcott (2008). Writing up qualitative research.

Provavelmente esqueci-me de alguns "essenciais" mas fica o desafio para vocês comentarem este post: Que outros recursos qualitativos consideram essenciais?

segunda-feira, 2 de Julho de 2012

Alto e pára... a análise!

 @luanacunhaferreira


Quando é que se pode finalmente parar com a análise qualitativa? 
P.A.R.A.R.
Quando?


Quando se tem uma constelação de temas que se configura em redor de uma única categoria, qual sistema solar em órbita à volta do astro-rei?

 @luanacunhaferreira



Quando percebemos que já não estamos a ver (nem a sentir, nem a imaginar, nem a ligar nem a criar) nada de novo a partir dos dados, e que por mais que os viremos ao contrário, do avesso, de trás para a frente....já não dá mais?

Curran Clark photography

...ou quando já só queremos arranjar um novo problema para resolver, um novo fenómeno para indagar....um novo qualquer coisa...?




Lyn Richards (2005), no seu livro Handling Qualitative Data  (que recomendo vivamente, especialmente a quem faz grounded theory), sugere 5 sinais que indicam que a análise realizada é suficiente:

1. 
Simplicidade
Produzimos um cristal multifacetado ou uma amálgama de diamantes em bruto ?

2. 
Equilíbrio: 
O esquema resultante da análise é coerente? organizado?

3. 
Integração: 
Explica o fenómeno em estudo e inclui algumas possíveis variações do mesmo?

4. 
Robustez
Será uma proposta forte o suficiente para não se deixar desmontar facilmente pela inclusão de novos dados?

5.
Relevância
Faz sentido para as audiências a quem se dirige? 


Estes princípios são úteis na medida em que nos alertam para um erro comum em análise qualitativa. A identificação de temas, por si só, parece mas não é suficiente para satisfazer estes critérios de qualidade. Para uma investigação qualitativa de qualidade, é necessário contextualizar e ligar esses temas, de forma a construir um argumento coerente suportado pelos dados - que seja útil para os interessados e interessante para o revisores...

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Referências:
Bazeley, P. (2009).  Analysing qualitative data: More than ‘identifying themes’Malaysian Journal of Qualitative Research,  2, 6-22.
Richards, L. (2005).  Handling qualitative data. London: Sage. 



sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Parte II: Estratégias de métodos mistos




Depois de ter resumido aqui  os objectivos de três estratégias de métodos mistos e a sua lógica subjacente - lógica retória, paralela ou integrativa - descrevo agora as outras três estratégias, sugeridas por Mason (2006).

4. Objectivo: Misturar métodos para atingir uma medição precisa através da triangulação. 


Já aqui falámos das armadilhas inerentes à conceptualização da triangulação como uma ferramenta para garantir a validade (tanto aqui como aqui). O uso de diferentes métodos mistos para melhorar, testar ou validar um fenómeno, com o argumento da lógica corroborativa, é uma aproximação redutora e simplista da versão mais integrativa descrita anteriormente, no ponto 3. A ênfase na precisão da medição não se enquadra facilmente na natureza complexa e processual das muitas formas de ciência social e a ligação corroborativa entre diferentes métodos raramente é linear. Veredicto O risco subjacente ao uso desta estratégia é dar uma (falsa) aparência mais científica. É difícil de fazer (bem) e tem benefícios limitados, pois parte de uma lógica conservadora que não é adequada para explicar fenómenos sociais complexos. 

5. Objectivo: Misturar métodos para perguntar questões distintas mas intersectadas


Aqui chegamos à cereja no topo do bolo. Seria uma pena se concluíssemos que misturar métodos é demasiado problemático porque a lógica paralela não é satisfatória e porque uma lógica verdadeiramente corroborativa é questionável. Mas a lógica multidimensional inerente à estratégia da intersecção permite até que o campo da indagação e o próprio fenómeno em questão sejam redefinidos no processo de investigação. Exemplo: Numa investigação sobre vida emocional e vida pessoal, em vez de deixar temas como "eu interior" para os psicólogos, "construção social das emoções" para os sociólogos e "regras e rituais de expressão das emoções" para os antropólogos - não seria muito mais interessante (e excitante!) utilizar as diferentes questões e métodos para as explorar de forma colectiva (e não integrada)? Envolveria reconhecer que no mundo social os fenómenos são multi-dimensionais, e que estas dimensões muitas vezes existem de uma forma desarrumada e tensa, em vez de estarem todas bonitas e arrumadinhas umas com as outras, como camadas bem comportadas de um bolo de noiva.


O argumento é que diferentes métodos e abordagens têm forças distintas que, se potencializadas, podem ajudar-nos a compreender a multi-dimensionalidade e a complexidade social.  Há um sentido de intersecção nesta abordagem, que envolve uma tensão criativa e um diálogo entre os diferentes métodos e abordagens. Em vez de se oferecer uma explicação integrada ou várias explicações paralelas, é ilustrada uma explicação multi-nodal e dialógica baseada na dinâmica da relação entre mais do que uma 'forma de ver as coisas'. É, verdadeiramente, 'pensar fora da caixa'.   Veredicto: Requer, da parte d@ investigad@r, reflexividade, compromisso, capacidade de crítica e vontade de empurrar barreiras . É muito desafiante porque confronta algumas fronteiras de conhecimento, epistemologia e prática das ciências sociais. É muito difícil de fazer, mas promete significativamente aumentar e melhorar a explicação de fenómenos em ciência social. 

6. Objectivo: Misturar métodos de forma oportunista.  


Nesta abordagem, o investigador não tem controlo sobre o desenho de investigação, nem sobre o processo e forma da análise de dados. Esta abordagem não tem lógica intrínseca, não é por isso que pode ter menos resultados surpreendentes. O acaso é tanto inimigo como amigo da investigação, como sabemos. Veredicto: Não sendo propriamente uma estratégia, porque não tem uma lógica intrínseca, esta abordagem pode oferecer oportunidades interessantes

sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Novo recurso: Online QDA


Graham Gibbs (University of Huddersfield) e Nigel Fielding (University of Surrey), são dois dos meus autores favoritos em termos de investigação qualitativa e em conjunto outros colegas criaram o site OnlineQDA - Learning Qualitative Analysis on the Web (em inglês).



É um óptimo recurso, completo e complexo o suficiente sem ser críptico. Tem um glossário que cobre os conceitos mais importantes, tutoriais sobre "como fazer" recolhas e análises várias e uma óptima biblioteca de referências conforme o tema. 



Especial atenção para a parte da codificação. Sei que há por aí muita confusão em relação às estratégias da codificação e é das coisas que mais pode estragar ou potenciar uma análise de dados de qualidade. 

Mergulhem à vontade!

quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Resumindo e concluindo: as 6 estratégias de Investigação por Métodos Mistos


Como já aqui falámos, há uma terceira vaga na investigação por métodos mistos que inclui, entre outras coisas, uma mudança de uma abordagem que procura integrar dados, para uma abordagem multi-nodal que procura ligar (ou enredar) dados.

Mason descreve as 6 estratégias para investigação com  metodologias mistas, que se enquadram nestas abordagens. De uma forma muito prática e fazendo a ligação entre os objectivos e a lógica que suporta cada estratégia, aqui estão as primeiras 3:


  1. Objectivo: Fazer uma ilustração em detalhe de um estudo quantitativo ou dar suporte alargado/background a uma investigação qualitativa. Apoiada por uma lógica retórica, esta estratégia tem ambições modestas, já que não há um real tentativa de construir uma explicação ou um diálogo multi-métodos - o Quali domina o Quanti ou vice versa. Assim, não é muito difícil seguir esta estratégia, mas também não gera nada de especialmente criativo, excitante, complexo ou integrador e as questões serão obrigatoriamente muito limitadas. Veredicto: fácil de fazer, baixo risco, mas não te leva muito longe.
  2. Objectivo: Responder a questões de investigação diferentes, que não estejam ligadas analiticamente. Aqui é visível uma lógica paralela onde cada parte do estudo tem o seu próprio design, forma de recolha, análise e explicação. Esta abordagem tem poucos desafios, porque embora use métodos mistos, a lógica subjacente não pretende ligar ou misturar as metodologias. Veredicto: Tem mais vantagens que a lógica retórica porque não tenta artificialmente abrigar diferentes abordagens numa explicação dominante, e tem um potencial interessante gerar novas ideias e empurrar fronteiras metodológicas, especialmente em projectos em fase final.
  3. Objectivo: Investigar diferentes partes ligadas por um todo. Aqui é já visível uma lógica  integrativa, onde diferentes métodos usados pela sua utilidade para responder a uma parte específica do problema a ser investigado porque essa combinação transmite melhor o todo. Veredicto: É difícil de fazer, requer competências muito específicas e um conhecimento  decente sobre questões epistemológicas. Funciona muito bem quando há um modelo claro e consensual para integrar os dados. 


(seguem brevemente as outras 3 estratégias: lógica corroborativa, multidimensional ou oportunista)

quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Métodos Mistos, a terceira vaga e o cristal.

Algo de novo anda a aparecer no reino da Investigação por Métodos Mistos (IMM - Mixed Methods Research 


Críticas à IMM
Num artigo publicado hoje, no Journal of Mixed Methods Research, Norman Denzin afirma que, apesar da IMM já existir no discurso científico há pelo menos 30 ou 40 anos, ainda não se consegue definir bem o método ou os seus benefícios.

As guerras de paradigmas dos anos 60 e 70 não foram ainda ultrapassadas. Por um lado, os proponentes da tese da incompatibilidade ou incomensurabilidade entre os qualitativo e o quantitativo (Quali/Quanti) propõem que estes métodos enquadram-se em paradigmas diferentes e por isso não podem ser combinados facilmente. Esta visão é contraposta pelo grupo que afirma que no discurso associado à IMM há um enviesamento pós positivista onde o Qualitativo aparece como subordinado (ou inferior) ao Quantitativo, como se de uma hierarquia se tratasse. Denzin aponta ainda outros problemas no reino da IMM: é cara, os investigadores por vezes padecem de uma espécie de superficialidade biligue (ao "brincarem" com os 2 métodos: Quali/Quanti) e as permanentes discussões filosóficas impedem o avanço pragmático. Denzin resume estas críticas, avançadas por outros autores, mas depois faz também ele uma crítica muito pessoal que acaba por se tornar o foco desde artigo - e que pode ser, a meu ver, algo revolucionária. Afirma que a IMM, na sua situação actual, oferece muito poucas estratégias para avaliar os níveis de experiência mais interpretativa e contextual onde os significados são criados. Adicionalmente, a IMM actualmente também não oferece um mapa para a análise crítica (Freire) e uma abordagem pragmática que explicitamente encare as questões de justiça social (West, 1995).


Um triângulo ou um cristal?


Existe um espectro contínuo na abordagem à análise e representação de materiais qualitativos. De um lado, a ênfase está no conhecimento válido e fidedigno gerado por investigadores neutros que usam métodos rigorosos para chegar à Verdade. Cabe neste saco o pós-positivismo, o ecletismo e as novas iniciativas de IMM.  Do outro lado do espectro, estão os investigadores que valorizam o conhecimento humanista e abertamente subjectivo: autoetnografia, narrativas, imagens. As verdades são múltiplas e ambíguas.

A meio caminho entre estes 2 pontos situa-se uma abordagem  que oferece descrição, exposição, análise, insight e teoria, misturando arte e ciência e transcendendo frequentemente estas categorias. Escreve-se na primeira pessoa, o investigador procura ser íntimos dos seus dados - não dos sujeitos :-) - e utiliza-se a grounded theory ou métodos múltiplos.
Ellingson’s (2009) propõe a figura de uma cristal como a melhor ilustração da sua própria abordagem pós-moderna à triangulação: a imagem central da indagação qualitativa tem que envolver lentes múltiplas. Esta cristalização está embebida de um discuso energicamente indisciplinado. Procura produzir uma interpretação espessa e complexa, utilizando diversas formas de análise e incorporando o processo reflexivo do investigador no processo de indagação. Denzin afirma que esta versão de triangulação proposta por Ellingson é consistente com a terceira vaga de movimentação entre e através de métodos, politicas e indagação.



Perguntas difíceis

Denzin utiliza a metáfora do investigador como bricoleur  - alguém que age dentro do conceito do "faça você mesmo", dançando entre tarefas, abordagens e estratégias metodológicas, mas nunca cometendo o erro de misturar ou sintetizar paradigmas - ao propor para discussão a viabilidade desta terceira vaga na IMM:

  • Será que podemos criar um discurso que não brinca às palavras consigo mesmo de uma forma metodocêntrica (Hesse-Biber, 2010)? 
  • Será que conseguimos descortinar uma forma de sairmos do presente estado das coisas?
  • Podemos ter agora uma moratória na conversa sobre design e tipologias de IMM e voltarmos a nossa atenção para a tarefa mais importante que temos - que é mudar o mundo?

Para Denzin, o investigador bricoleur está na profissão de mudar o mundo, com o objectivo de justiça social e tem de agir como um catalisador da mudança social. Os investigadores qualitativos académicos têm uma obrigação de mudar o mundo, de se empenharem num trabalho ético que faz a diferença positiva. Desafia-nos a confrontar os factos de injustiça, a tornar as injustiças da história visíveis, abrindo assim o caminho para a mudança e transformação.

(Já ouço as vozes: "Era o que faltava! Isto é só uma tese/artigo/estudo? Agora é para mudar o mundo?")

Inspirador, revolucionário ou demente?


Norman K. Denzin percebe alguma coisa do assunto, é Professor e Investigador de Comunicação, Sociologia e Humanidades na University of Illinois, Urbana-Champaign. É autor e editor de diversos livros, incluindo: The SAGE Handbook of Qualitative Research, Strategies of Qualitative Inquiry, The Qualitative Manifesto e Qualitative Inquiry Under Fire, entre outros. Foi editor do periódicos The Sociological Quarterly,  Qualitative Inquiry,  Cultural Studies-Critical Methodologies, International Review of Qualitative Research,  Studies in Symbolic Interaction, e é  Director do International Congress of Qualitative Inquiry

Referência
in Denzin, N. (2012). Triangulation 2.0. Journal of Mixed Methods Research, 6, 80-88.[enfase adicionada]