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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Tipos de análise qualitativa (#1): A análise temática


Muitas das questões que me fazem actualmente referem-se às diferenças e semelhanças entre tipos de análise de dados qualitativos:

Se quando utilizo grounded theory estou à procura de temas emergentes, isso não é análise temática? E a análise temática é mais simples do que a análise narrativa? Qual a diferença entre análise de conteúdo e análise temática?

Hoje iniciamos uma série de artigos que pretendem abordar algumas destas confusões. Começamos com a Análise Temática - o método mais "faça-você-mesmo" da analise qualitativa.

por Luís Alves
 http://urban-myth.tumblr.com

O que é a análise temática?


A análise temática é um método interpretativo de análise de dados. Através da identificação, análise e descrição de padrões ou temas, permite apresentar e organizar os dados de uma forma sintética, embora rica.

A análise temática é flexível;  pode ser utilizada com diferentes posicionamentos epistemológicos (positivista; pós-positivista; construccionista); não tem requisitos de amostragem (i.e.: não é necessária uma amostragem teórica); e adequa-se a diversos tipos de dados qualitativos (entrevistas, focus groups; diários, etc). 

Fazer análise temática é como fazer 'grounded theory light'


Enquanto a grounded theory (GT) é considerada uma metodologia específica, já que pressupõe um quadro de referência teórico sobre como conduzir a recolha e análise de dados de forma a produzir teoria, com um protocolo (relativamente) definido, a análise temática é apenas um método de análise. 

A análise temática é mais acessível do que a grounded theory, especialmente se considerarmos que uma abordagem com GT pode demorar muito tempo, tem procedimentos específicos que precisam de ser bem treinados e calibrados, necessita de uma contínuo investimento na abstracção conceptual e na comparação constante, e tem alguns requisitos pouco adaptáveis a muitos projectos de investigaçãoAo contrário da grounded theory, a análise temática não tem como objectivo último o desenvolvimento de uma teoria a partir de conceitos core, mas sim uma descrição sumária dos dados através de temas que os representem adequadamente.


Como fazer análise temática: 15 critérios de qualidade



Embora flexível e aparentemente 'descomplicada', a análise temática pode tornar-se numa dor de cabeça para investigadores menos experientes: a ausência de um referencial teórico sólido pode dificultar o processo de análise e a simplicidade dos processos pode contribuir para resultados simplistas - que mais não são que paráfrases dos dados. Eis os 15 critérios para uma análise temática de qualidade (adaptado de Braun & Clarke, 2006). 


  1. Os dados foram transcritos detalhadamente e devidamente contrastados com as versões áudio para detectar erros. 
  2. No processo de codificação, foi dada igual atenção a cada fonte de dados (i.e. cada entrevista)
  3. Os temas foram gerados através de um processo de codificação completo, inclusivo e aprofundado, não através de alguns recortes anedóticos do texto
  4. Todos os excertos relevantes foram agrupados em temas
  5. Os diferentes temas foram comparados entre si e contrastados com o texto original
  6. Cada tema é internamente coerente, consistente e distinto (de outros temas)
  7. Os dados foram analisados de forma interpretativa, não são apenas descrições ou paráfrases do texto. 
  8. A análise e os dados são compatíveis: os excertos ilustram claramente os temas sugeridos.
  9. Os resultados da análise contam uma história organizada e convincente sobre o tópico
  10. Há um bom equilíbrio entre a narrativa de análise e a ilustração dos temas através de excertos
  11. A análise demorou algum tempo, não foi apenas uma passagem superficial pelos dados à procura de tópicos gerais
  12. No relatório final da análise, os pressupostos teóricos e todas as fases processo de análise são descritos detalhadamente na secção Método (ou tão detalhadamente quanto os requisitos da revista permitam)
  13. A descrição dos procedimentos de análise(#12) é coerente com a forma como os dados estão descritos nos resultados
  14. A linguagem e os conceitos usados são consistentes com as posições epistemológicas assumidas pelo investigador. Por exemplo, se reivindica uma posição pós-positivista, assume que a realidade não é cognoscível e estarão ausentes dos resultados temas e construtos que transmitam a  ideia de uma realidade objectiva. 
  15. O investigador posiciona-se de uma forma activa na análise - os temas não emergem por si só

Convém ter em conta que há pelo menos duas abordagens à análise temática. A abordagem mais utilizada é a de Braun e Clarke, a outra é proposta por vários autores, entre os quais Boyatzis (1998). 


por Luís Alves
 http://urban-myth.tumblr.com

Referências:


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Formação em metodologias qualitativas e análise de dados


Precisa de utilizar metodologias qualitativas de análise de dados e não sabe por onde começar?

Quer saber a diferença entre análise temática, análise narrativa e grounded theory?  Gostava de perceber que tipo de estratégia de análise se adequa aos seus objectivos? E aprender o funcionamento básico do NVIVO, um dos programas mais utilizados na análise qualitativa?

Irei dinamizar na Casa estrela-do-mar, no próximo dia 25 de Janeiro (14-18h), uma formação pensada para  estudantes,   investigadores e interessados em análise qualitativa. 

Valor de 30 euros (24 euros para sócios da Casa estrela-do-mar).

Inscreva-se através de email geral@casaestreladomar.pt ou do telefone 913301540.

Inscrições limitadas!

Mais informações aqui


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Bolsas, Financiamentos e Investigação Qualitativa (grounded theory)



E como estamos em altura de escrever projectos para Bolsas de Investigação e financiamentos vários, aqui fica um artigo para ajudar a ultrapassar alguns dos desafio mais desconcertantes para quem quer fazer grounded theory tradicional e cumprir com os pré-requisitos dos formatos tradicionais das propostas de investigação: "Surviving Grounded Theory Research Method in an Academic World: Proposal Writing and Theoretical Frameworks", por Elliott & Higgins, do Trinity College (Dublin).


Tensões mais frequentes:

- Obrigatoriedade de usar um quadro de referência teórico como parte dos requerimentos da proposta de financiamento

- Primazia da ligação investigação-teoria em vez da ligação teoria-investigação

- Pré-definição da recolha de amostra e saturação teórica



Já que estamos no tema, mais informações sobre como fazer e escrever uma boa proposta de investigação qualitativa aqui, aqui e aqui.



Boa leitura...e boa sorte para as Bolsas :-)



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Análise de dados qualitativos: Actividades práticas com alunos

Esquemas resultantes da análise qualitativa in loco, produzidos pelos alunos.


O que acontece quando um grupo de alunos de psicologia - que na sua maioria nunca ouviu falar em análise qualitativa  - é confrontado com um excerto de uma entrevista para codificar? Ali e agora.  Medo? Caos? Incredulidade? Escárnio e mal-dizer? Dissonância cognitiva? O ocasional bocejo?  :-)  Sim, alguns destes ingredientes estiveram presentes, são pitadas essenciais numa actividade onde se pede uma elevada capacidade de entrega e de experienciação de algo que é desconhecido e complexo..

No entanto, o que senti na vasta maioria dos alunos-participantes* foi uma curiosidade genuína, uma séria pré-ocupação com o rigor metodológico e uma excelente capacidade de envolvimento com os dados e com o processo. E também uma saudável disponibilidade para porem em causa preconceitos  e para se rirem das automatizações que por vezes estão enraizada na forma como encaramos as ciências.

Após uma aula teórica onde foram apresentados os conceitos gerais da análise de dados qualitativos e os métodos e paradigmas subjacentes (tomando como exemplo este  projecto), surgia o grande desafio: a análise de um excerto de uma entrevista, na aula prática, conforme indicações do seguinte exercício em grupo :

Tarefa: "No mundo dos casais"


  1. Ler o excerto da entrevista e reflectir sobre quais os objectivos específicos subjacentes;
  2. Testar e afinar os processos de codificação;
    1. Descritiva: Quem são estes participantes?
    2. Tópica: O excerto refere-se a que temas gerais?
    3. Analítica: Que categorias emergem? Que conceitos estão representados, o que pode ser explicador e agregador, como se relacionam os conceitos?
  3. Justificação: basear a codificação analítica na contagem de ocorrências de determinadas unidades de significados, na relação entre categorias e/ ou na análise aprofundada da estrutura da narrativa.
  4. Criar um esquema que ilustre os resultados da análise

Cada grupo teve direito a um excerto diferente da mesma entrevista. Este foi um deles:


"Excerto 4  da entrevista ao casal Mariana (37) e Francisco (39), em união de facto há 10 anos, com 3 filhos.
L: Imaginem que vocês encontravam um casal de 80 anos que vos dizia “Nós conseguimos manter um desejo sexual muito satisfatório para ambos, ao longo de 60 anos de casamento”. O que é que vocês acham que este casal fez?
M: Acho que comunicou bem.
F: Confiança.
M: Aprenderam a manter a comunicação. Se agora não conseguimos resolver, amanhã vamos conseguir. Se eu não consigo, ele vai conseguir.
F: Expostos à diferença. A ouvir o outro.
M: A tolerar que o outro não se funda comigo. Que o outro esteja no meio da festa e ser a estrela.
F: Não admitir a monotonia, se não às tantas enrola-se numa coisa que não tem interesse e acaba por acabar.
M: Se o próprio tem uma dificuldade um problema que não consegue resolver, pode ser necessário ir buscar uma ajuda…
L: Ir buscar os recursos que se acha que são necessários?
M: Mas mantendo sempre aberta a comunicação. Eu preciso disto, vou fazer isto… Pode ser qualquer coisa e que o outro saiba dizer então vai."



Os grupo iniciaram o seu trabalho com diferentes ritmos. As principais dúvidas iniciais prenderam-se com a codificação descritiva (até chegarem às categorias "género", "idade", "tipo de união" - as únicas a que tinha acesso). Após ultrapassada a primeira dificuldade, os pedidos de ajuda ou esclarecimento foram relativos ao processo - indubitavelmente árduo - de abstrair dos dados categorias suficientemente específicas e simultaneamente meta, que de facto acrescentem qualquer coisa de novo à análise. Ao relacionar estas novas categorias emergentes entre si através de outras categorias mais interactivas ou processuais, os resultados esquemáticos começaram a ser testados contra os dados (excerto) e os resultados estão à vista.

Exemplos de alguns esquemas produzidos:










Todos estes excertos foram conceptualizados e produzidos pelos alunos em menos de 1 hora! Mas o processo total foi maior e incluiu uma aula teórica. Fomos do excerto às perguntas do guião, do guião à entrevista, dos dados às categorias de análise, sempre em frente até às pesquisas de significados e por fim de volta às análises para perceber como se pode co-construir a teoria.


Pessoalmente, foi uma experiência riquíssima, e fiquei cheia de vontade de repetir!

Obrigada a tod@s.


* Tenho por hábito, nas aulas que sou convidada a dinamizar, distribuir uma folheto com 3 pontos (O que gostei mais? O que gostei menos? e Comentário)  para a minha própria avaliação, ou seja, para perceber o que correu bem e que áreas é que necessitam de ser melhoradas. É uma ferramenta de trabalho inestimável.

Nota: Todos os esquemas foram reproduzidos com a expressa autorização dos seus autores originais. Agradeço à aluna Marlene L. o envio de algumas fotografias e lamento não poder colocar todos os esquemas produzidos, por questões de espaço no blog. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Emoções e Bloqueios na Escrita Científica



Carol Smart 

A escrita científica, nos seus diversos formatos e pelas suas características únicas, não é nada fácil. É um desafio constante que facilmente tomba para ansiedades, estados depressivos e bloqueios vários. No vídeo "The emotional challenges of writing"Carol Smart, do Morgan Centre (Universidade de Manchester) revela-nos, de forma brilhante e em menos de 7 minutos, que medos se escondem por trás destas dificuldades, que estratégias ela própria utiliza* e como ultrapassar um desafio muito específico: Bloqueio d@ Escritor@, vulgo Writer's Block. O vídeo é um Inglês, para quem quiser há o meu resumo livre logo em baixo.

*eu não sei nada, mas acho que estas estratégias devem funcionar...afinal estamos a falar de alguém que publicou mais de 50 trabalhos científicos só na última década. Atenção, não façam as contas com as outras décadas, perigo de desmotivação!


Vídeo produzido Pelo Morgan Centre for the Study of Relationships and Personal Life (University of Manchester) também disponível aqui

Os desafios:
Escrever cientificamente tem várias implicações mas uma delas é constante: escrevemos potencialmente para uma audiência de pares qualificados. Isto pode facilmente criar o medo da exposição, de sermos julgados. A nossa escrita é pública e o fantasma da vigilância interpares, ainda que muitas vezes negado, é real. Para os "escritores" mais novos que apenas publicaram a tese, por exemplo, é também comum a questão "será que nunca mais vou conseguir publicar? A acompanhar esta tragédia (!) vem também a velha questão da insegurança, ou seja, se seremos tão bons como os nossos pares.

Três estratégias para escrever de forma produtiva:
1. Reconhecer que as emoções fazem parte do processo de escrita e que o próprio processo é feito de altos e baixos.
2. Encontrar o nosso ritmo de escrita e respeitá-lo. Se escrevem bem de manhã e a seguir ao almoço não conseguem concentrar-se até às 16h, assumam essa rotina sem culpa e utilizem as outras horas para fazer outras coisas necessárias (ou nem tanto). Se o vosso ritmo funciona, tornem-no numa rotina.
3. Nada na escrita científica, pela sua própria definição, é definitivo. Em vez de pensarem que já vão estar a ser julgados, pensem que estão apenas a iniciar uma conversação, porque na realidade, é mesmo disso que se trata. Não se sentem em cima da vossa produção intelectual até estar tudo completamente maduro e perfeito, lancem umas ideias para a discussão e algo crescerá daí.

E quando o Bloqueio se instala?
Não é preciso que as ideias estejam completamente desenvolvidas para as escrever. Escrevam tudo, até os maiores disparates ou aquilo que parece apenas uma semente muito pouco desenvolvida. Escrevam tudo, sempre. Smart afima que "a Progressão opera contra a depressão". Encarem a escrita de uma forma mais leve. Por fim, uma das ideias aqui sugeridas que considero particularmente útil para as metodologias qualitativas é a de começar a escrever um projeto ou uma ideia por aquilo que vais vou interessa ou mais vos seduz nela. As ideias materializam-se também (ou sobretudo) no próprio processo de escrita. Mantenham algumas ancoras para não se perderem no vazio ou saírem completamente dos vossos objetivos, mas deixem-se também levar pelo próprio processo. 

No fundo, escrevam tudo, sempre. 
Ou como diria Pina Baush: "Dancem, dancem, senão estaremos perdidos"


Referências:
Smart, C. (2010). The Emotional Challenges of Writing [Video]. Disponível através de  www.manchester.ac.uk/morgancentre.
Smart, C. (2010). Disciplined writing: On the problem of writing sociologically. Disponível através de http://www.socialsciences.manchester.ac.uk/morgancentre/realities/wps/13-2010-01-realities-disciplined-writing.pdf

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mapa de Estrada: Qualitativas na Biblioteca




Não é a primeira (nem a quarta...) vez que me perguntam:
- "Tanta coisa...mas por onde é que começo?"
- "É melhor ler primeiro sobre os paradigmas ou sobre as técnicas?"
- "Deixo para o fim os grandes handbooks de qualitativas ou ataco-os logo antes de seguir para a grounded theory?"


Deixo aqui um possível roteiro. Baseei as minhas escolhas na minha própria experiência em termos de mestrado + doutoramento e naquilo que considero ser o mais frequente planeamento estratégico de uma investigação. É uma lista curta, focada naquilo que considero "os essenciais". É um ponto de partida. 


Todos estes recursos se encontram na Biblioteca da Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação.


Organizei os recursos na forma que é para mim mais natural e correcta: 1) Paradigmas e abordagens macro; 2) Escolas; 3) Estratégias de recolha; 4) Técnicas de análise; 5) O mundo real  e 6) Integração e escrita. Alguns são em Português (PT). Penso que esta sequência poderá prevenir alguns daqueles erros clássicos e tãooo chatos ("Oh não! Afinal não posso fazer grounded theory com categorias prévias rígidas! Será que acabei de perder 1 mês de codificações!?! ")


Aqui vai:


Paradigmas e abordagens macro
  • Flick (2005). Métodos qualitativos na investigação científica (PT). 
  • Denzin & Lincoln (2008).  The landscape of qualitative research
  • Creswell (2007). Qualitative inquiry & research design : choosing among five approaches
  • Denzin &Lincoln(2006). The Sage handbook of qualitative research 
  • Creswell & Clark (2011). Designing and conducting mixed methods research
Escolas e Modelos
  • Corbin & Strauss (2008). Basics of qualitative research : techniques and procedures for developing grounded theory (Também em PT, com o título: "Pesquisa qualitativa : técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de teoria fundamentada")
  • Charmaz (2007). Constructing grounded theory : a practical guide through qualitative analysis (Também em PT, com o título "A construção da teoria fundamentada"
  • Hollway & Jefferson (2007). Doing qualitative research differently : free association, narrative and the interview method
  • Elliott (2005) Using narrative in social research : qualitative and quantitative approaches
  • Guerra (2006).  Pesquisa qualitativa e análise de conteúdo
Estratégias de recolha
  • Brinkmann & Kvale (2009). Interviews: Learning the craft of qualitative research interviewing 
  • Rubin & Rubin (2005). Qualitative interviewing : the art of hearing data.
  • Krueger (2009). Focus groups: A practical guide for applied research.
Técnicas de análise
  • Silverman (2009). Interpretação de dados qualitativos : métodos para análise de entrevistas, textos e interações
  • Major &Savin-Baden (2010). An introduction to qualitative research synthesis : managing the information explosion in social science research 
  • Bazeley (2010). Qualitative data analysis with NVivo.
  • Guerra (2006).  Pesquisa qualitativa e análise de conteúdo
  • (nota: o primeiro e segundo livro na categoria "Escolas e Modelos" também incluem componentes de análise, em grounded theory)
O mundo real
  • Richards (2009). Handling qualitative data: A practical guide
  • Hesse-Biber & Leavy (2011). The practice of qualitative research.
Integração e Escrita
  • Bloomberg & Volpe (2008). Completing your qualitative dissertation: A roadmap from beginning to end.
  • Wolcott (2008). Writing up qualitative research.

Provavelmente esqueci-me de alguns "essenciais" mas fica o desafio para vocês comentarem este post: Que outros recursos qualitativos consideram essenciais?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Alto e pára... a análise!

 @luanacunhaferreira


Quando é que se pode finalmente parar com a análise qualitativa? 
P.A.R.A.R.
Quando?


Quando se tem uma constelação de temas que se configura em redor de uma única categoria, qual sistema solar em órbita à volta do astro-rei?

 @luanacunhaferreira



Quando percebemos que já não estamos a ver (nem a sentir, nem a imaginar, nem a ligar nem a criar) nada de novo a partir dos dados, e que por mais que os viremos ao contrário, do avesso, de trás para a frente....já não dá mais?

Curran Clark photography

...ou quando já só queremos arranjar um novo problema para resolver, um novo fenómeno para indagar....um novo qualquer coisa...?




Lyn Richards (2005), no seu livro Handling Qualitative Data  (que recomendo vivamente, especialmente a quem faz grounded theory), sugere 5 sinais que indicam que a análise realizada é suficiente:

1. 
Simplicidade
Produzimos um cristal multifacetado ou uma amálgama de diamantes em bruto ?

2. 
Equilíbrio: 
O esquema resultante da análise é coerente? organizado?

3. 
Integração: 
Explica o fenómeno em estudo e inclui algumas possíveis variações do mesmo?

4. 
Robustez
Será uma proposta forte o suficiente para não se deixar desmontar facilmente pela inclusão de novos dados?

5.
Relevância
Faz sentido para as audiências a quem se dirige? 


Estes princípios são úteis na medida em que nos alertam para um erro comum em análise qualitativa. A identificação de temas, por si só, parece mas não é suficiente para satisfazer estes critérios de qualidade. Para uma investigação qualitativa de qualidade, é necessário contextualizar e ligar esses temas, de forma a construir um argumento coerente suportado pelos dados - que seja útil para os interessados e interessante para o revisores...

***

Referências:
Bazeley, P. (2009).  Analysing qualitative data: More than ‘identifying themes’Malaysian Journal of Qualitative Research,  2, 6-22.
Richards, L. (2005).  Handling qualitative data. London: Sage. 



sexta-feira, 15 de junho de 2012

Parte II: Estratégias de métodos mistos




Depois de ter resumido aqui  os objectivos de três estratégias de métodos mistos e a sua lógica subjacente - lógica retória, paralela ou integrativa - descrevo agora as outras três estratégias, sugeridas por Mason (2006).

4. Objectivo: Misturar métodos para atingir uma medição precisa através da triangulação. 


Já aqui falámos das armadilhas inerentes à conceptualização da triangulação como uma ferramenta para garantir a validade (tanto aqui como aqui). O uso de diferentes métodos mistos para melhorar, testar ou validar um fenómeno, com o argumento da lógica corroborativa, é uma aproximação redutora e simplista da versão mais integrativa descrita anteriormente, no ponto 3. A ênfase na precisão da medição não se enquadra facilmente na natureza complexa e processual das muitas formas de ciência social e a ligação corroborativa entre diferentes métodos raramente é linear. Veredicto O risco subjacente ao uso desta estratégia é dar uma (falsa) aparência mais científica. É difícil de fazer (bem) e tem benefícios limitados, pois parte de uma lógica conservadora que não é adequada para explicar fenómenos sociais complexos. 

5. Objectivo: Misturar métodos para perguntar questões distintas mas intersectadas


Aqui chegamos à cereja no topo do bolo. Seria uma pena se concluíssemos que misturar métodos é demasiado problemático porque a lógica paralela não é satisfatória e porque uma lógica verdadeiramente corroborativa é questionável. Mas a lógica multidimensional inerente à estratégia da intersecção permite até que o campo da indagação e o próprio fenómeno em questão sejam redefinidos no processo de investigação. Exemplo: Numa investigação sobre vida emocional e vida pessoal, em vez de deixar temas como "eu interior" para os psicólogos, "construção social das emoções" para os sociólogos e "regras e rituais de expressão das emoções" para os antropólogos - não seria muito mais interessante (e excitante!) utilizar as diferentes questões e métodos para as explorar de forma colectiva (e não integrada)? Envolveria reconhecer que no mundo social os fenómenos são multi-dimensionais, e que estas dimensões muitas vezes existem de uma forma desarrumada e tensa, em vez de estarem todas bonitas e arrumadinhas umas com as outras, como camadas bem comportadas de um bolo de noiva.


O argumento é que diferentes métodos e abordagens têm forças distintas que, se potencializadas, podem ajudar-nos a compreender a multi-dimensionalidade e a complexidade social.  Há um sentido de intersecção nesta abordagem, que envolve uma tensão criativa e um diálogo entre os diferentes métodos e abordagens. Em vez de se oferecer uma explicação integrada ou várias explicações paralelas, é ilustrada uma explicação multi-nodal e dialógica baseada na dinâmica da relação entre mais do que uma 'forma de ver as coisas'. É, verdadeiramente, 'pensar fora da caixa'.   Veredicto: Requer, da parte d@ investigad@r, reflexividade, compromisso, capacidade de crítica e vontade de empurrar barreiras . É muito desafiante porque confronta algumas fronteiras de conhecimento, epistemologia e prática das ciências sociais. É muito difícil de fazer, mas promete significativamente aumentar e melhorar a explicação de fenómenos em ciência social. 

6. Objectivo: Misturar métodos de forma oportunista.  


Nesta abordagem, o investigador não tem controlo sobre o desenho de investigação, nem sobre o processo e forma da análise de dados. Esta abordagem não tem lógica intrínseca, não é por isso que pode ter menos resultados surpreendentes. O acaso é tanto inimigo como amigo da investigação, como sabemos. Veredicto: Não sendo propriamente uma estratégia, porque não tem uma lógica intrínseca, esta abordagem pode oferecer oportunidades interessantes

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Novo recurso: Online QDA


Graham Gibbs (University of Huddersfield) e Nigel Fielding (University of Surrey), são dois dos meus autores favoritos em termos de investigação qualitativa e em conjunto outros colegas criaram o site OnlineQDA - Learning Qualitative Analysis on the Web (em inglês).



É um óptimo recurso, completo e complexo o suficiente sem ser críptico. Tem um glossário que cobre os conceitos mais importantes, tutoriais sobre "como fazer" recolhas e análises várias e uma óptima biblioteca de referências conforme o tema. 



Especial atenção para a parte da codificação. Sei que há por aí muita confusão em relação às estratégias da codificação e é das coisas que mais pode estragar ou potenciar uma análise de dados de qualidade. 

Mergulhem à vontade!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Quantas entrevistas é preciso ter num estudo qualitativo?


A palavra chave é - para não variar - depende. 


É uma pergunta muito importante. Os estudantes e investigadores têm que começar a encarar de frente as questões epistemológicas sobre as quais terão de tomar sérias decisões. Com consequências.

Baker e Edwards perguntaram a investigadores com diferentes experiências em investigação qualitativa qual o número de entrevistas recomendado e, especialmente, quais a considerações a ter em conta quando se tomam essa decisões:

Haverá alguma fórmula para calcular quantas entrevistas são necessárias num estudo qualitativo? Será que a questão "Quantas?" é uma questão adequada para a investigação qualitativa? Será que um X número de entrevistas é adequado em termos epistemológicos (depende depende da tua perspectiva teórica, disciplina académica ou população em estudo) ou pragmáticos (considerando o tempo, os recursos disponíveis, os supervisores, e os comités de ética)?

RaginWolcott , especialistas que contribuíram para este artigo, aconselham os investigadores a tomarem a sua decisão de acordo com a saturação, ou seja, quando um investigador qualitativo começa a perceber que os dados são tão repetitivos que já não surge nada novo ou relevante, é tempo de parar.  Estes autores consideram que a saturação é um tema central à amostragem qualitativa. No entanto, Alan Bryman adverte que investigar até à saturação é um desafio por vezes compliado já que implica a fazer a amostragem, recolha de dados e a análise de dados de forma conjunta e simultânea em vez de sequencial (primeiro amostragem, depois recolha, depois análise). Esta abordagem não linear à investigação - presente por exemplo na Grounded Theory - tem muitas vantagens, mas por vezes os  investigadores precisam de decidir previamente o número de entrevistas a realizar.

Nesta perspectiva, Adler e Adler aconselham um número de referência, entre 16 e 60 entrevistas (sendo 30 entrevistas a média), conforme o objectivo da investigação e Ragin sugere 20 entrevistas para um mestrado, e 50 para um doutoramento.

E os "casos únicos"? PasseriniSandino afirmam que uma só entrevista qualitativa pode ser válida pela riqueza e complexidade da sua descrição subjectiva. Brannen  também considera que um caso único pode ser suficiente e nem ser passível de comparação, enquanto Becker afirma que apenas são necessárias algumas entrevistas para demonstrar que que um fenómeno é mais complexo do que se pensava.

É Jennifer Mason (University of Manchester) que nos indica as perguntas chave essenciais que todos os investigadores devem fazer de forma a decidir cuidadosa e criticamente quantas entrevistas fazer num estudo qualitativo - tendo sempre em atenção as características específicas do projecto em curso.

Eis a 7 questões-chave: 

1) Onde estás a tentar chegar?
Que tipos de fenómenos te interessam? Quais as tuas questões de investigação? Por vezes não há nenhum número que "chegue" para responder às nossas questões de investigação e outras metodologias, para além da entrevista semi-estruturada, por exemplo, terão de ser equacionadas.

2) Será que "mais" é sempre "melhor"?
O que muda se fizeres mais entrevistas? O número depende da lógica através da qual cada entrevista acrescenta conhecimento ou compreensão ao fenómeno em estudo. Tal fenómeno requer que consideres diferentes perspectivas? A compreensão desse fenómeno depende da tua exploração de como esses processo operam de maneira diferentes conforme as circunstancias? Pretendes estudar o fenómeno "a fundo" ou ver como é que ele muda ao longo do tempo?

3) Como é que ter mais ou menos entrevistas influencia a qualidade ou a força da explicação que irás oferecer? Terá influência no tipo de implicações que irás sugerir?
O conteúdos das entrevista, a qualidade dos dados e as tuas competências na sua análise são determinantes para decisão de quantas entrevistas necessitas para um estudo qualitativo. Poderás ter 500 entrevistas de dados muitos superficiais ou um análise incisiva de apenas 2 entrevistas. É sobretudo necessário pensar na linha de argumentação a fazer quanto à qualidade da investigação produzida. Se o argumento vai no sentido de que a força da explicação e a qualidade são decorrentes da representatividade da amostra e dos padrões das respostas encontradas, será necessário usar uma lógica estatística para tomar essa decisão - de acordo com uma abordagem mais nomotética. No entanto, na investigação qualitativa, é muito mais provável a construção de uma explicação profunda baseada na forma como os processos decorrem sob determinados contextos e circunstâncias sociais - uma abordagem ideográfica. Neste caso, predomina a utilização de uma lógica mais interpretativa e investigativa de forma a permitir a construção de uma narrativa de análise convincente baseada no argumento de que os processos foram explorados considerando a sua complexidade.


4) Que recursos estão disponíveis? Quanto tempo? Qual a escala do projecto? Quais as expectativas ou imposições dos financiadores?
Temos de ser realistas: a investigação qualitativa (seja baseada em entrevistas ao não) e análise qualitativa são demoradas e dada a exigência na qualidade da interpretação, a disponibilidade de tempo é um factor essencial. Em geral, é melhor ter um pequeno número de entrevistas, analisadas criativamente e de forma interpretativa, do que um grande número de entrevistas em que o/a investigador/a não teve tempo para uma análise adequada.





Referências principais:


Baker, Sarah Elsie and Edwards, Rosalind (2012) How many qualitative interviews is enough. Discussion Paper. . National Centre for Research Methods (NCRM). Retirado a 17.04.2012 de http://eprints.ncrm.ac.uk/2273/

Imagem retirada de RWConnect