quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Tipos de análise qualitativa (#1): A análise temática


Muitas das questões que me fazem actualmente referem-se às diferenças e semelhanças entre tipos de análise de dados qualitativos:

Se quando utilizo grounded theory estou à procura de temas emergentes, isso não é análise temática? E a análise temática é mais simples do que a análise narrativa? Qual a diferença entre análise de conteúdo e análise temática?

Hoje iniciamos uma série de artigos que pretendem abordar algumas destas confusões. Começamos com a Análise Temática - o método mais "faça-você-mesmo" da analise qualitativa.

por Luís Alves
 http://urban-myth.tumblr.com

O que é a análise temática?


A análise temática é um método interpretativo de análise de dados. Através da identificação, análise e descrição de padrões ou temas, permite apresentar e organizar os dados de uma forma sintética, embora rica.

A análise temática é flexível;  pode ser utilizada com diferentes posicionamentos epistemológicos (positivista; pós-positivista; construccionista); não tem requisitos de amostragem (i.e.: não é necessária uma amostragem teórica); e adequa-se a diversos tipos de dados qualitativos (entrevistas, focus groups; diários, etc). 

Fazer análise temática é como fazer 'grounded theory light'


Enquanto a grounded theory (GT) é considerada uma metodologia específica, já que pressupõe um quadro de referência teórico sobre como conduzir a recolha e análise de dados de forma a produzir teoria, com um protocolo (relativamente) definido, a análise temática é apenas um método de análise. 

A análise temática é mais acessível do que a grounded theory, especialmente se considerarmos que uma abordagem com GT pode demorar muito tempo, tem procedimentos específicos que precisam de ser bem treinados e calibrados, necessita de uma contínuo investimento na abstracção conceptual e na comparação constante, e tem alguns requisitos pouco adaptáveis a muitos projectos de investigaçãoAo contrário da grounded theory, a análise temática não tem como objectivo último o desenvolvimento de uma teoria a partir de conceitos core, mas sim uma descrição sumária dos dados através de temas que os representem adequadamente.


Como fazer análise temática: 15 critérios de qualidade



Embora flexível e aparentemente 'descomplicada', a análise temática pode tornar-se numa dor de cabeça para investigadores menos experientes: a ausência de um referencial teórico sólido pode dificultar o processo de análise e a simplicidade dos processos pode contribuir para resultados simplistas - que mais não são que paráfrases dos dados. Eis os 15 critérios para uma análise temática de qualidade (adaptado de Braun & Clarke, 2006). 


  1. Os dados foram transcritos detalhadamente e devidamente contrastados com as versões áudio para detectar erros. 
  2. No processo de codificação, foi dada igual atenção a cada fonte de dados (i.e. cada entrevista)
  3. Os temas foram gerados através de um processo de codificação completo, inclusivo e aprofundado, não através de alguns recortes anedóticos do texto
  4. Todos os excertos relevantes foram agrupados em temas
  5. Os diferentes temas foram comparados entre si e contrastados com o texto original
  6. Cada tema é internamente coerente, consistente e distinto (de outros temas)
  7. Os dados foram analisados de forma interpretativa, não são apenas descrições ou paráfrases do texto. 
  8. A análise e os dados são compatíveis: os excertos ilustram claramente os temas sugeridos.
  9. Os resultados da análise contam uma história organizada e convincente sobre o tópico
  10. Há um bom equilíbrio entre a narrativa de análise e a ilustração dos temas através de excertos
  11. A análise demorou algum tempo, não foi apenas uma passagem superficial pelos dados à procura de tópicos gerais
  12. No relatório final da análise, os pressupostos teóricos e todas as fases processo de análise são descritos detalhadamente na secção Método (ou tão detalhadamente quanto os requisitos da revista permitam)
  13. A descrição dos procedimentos de análise(#12) é coerente com a forma como os dados estão descritos nos resultados
  14. A linguagem e os conceitos usados são consistentes com as posições epistemológicas assumidas pelo investigador. Por exemplo, se reivindica uma posição pós-positivista, assume que a realidade não é cognoscível e estarão ausentes dos resultados temas e construtos que transmitam a  ideia de uma realidade objectiva. 
  15. O investigador posiciona-se de uma forma activa na análise - os temas não emergem por si só

Convém ter em conta que há pelo menos duas abordagens à análise temática. A abordagem mais utilizada é a de Braun e Clarke, a outra é proposta por vários autores, entre os quais Boyatzis (1998). 


por Luís Alves
 http://urban-myth.tumblr.com

Referências:


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